maio 27, 2007

Placebo

Foi com Special K e 20 Years que conheci a voz entranhável de Brian Molko. Essa voz que sempre que ouvia, saía a ideia da minha boca ‘bem qualquer musica deste senhor eu gosto’. Rondava o ano de 2000. Até me lembro das palavras em estilo de convite do meu caro amigo Capelão:’Smashing não é muito a minha onda...mas Placebo gosto bastante...assim do tipo de bandas que tem mais que ver contigo...’. Estavámos de frente para um anuncio qualquer de um festival qualquer que eles iriam actuar. Ele continuou:”Nem me importava de os ouvir tocar’.Em 1996, Brian Molko, Stefan Olsdal e Steve Hewitt lançam o seu primeiro album. Placebo começa com Come Home uma bomba musical. A influência de Smashing Pumpkins era notória na bateria de Steve, uma forte predominância da parte instrumental que assola por completo a primeira musica de uma carreira invejável. Bionic consegue reunir os maiores créditos no album, tornando-se umas das melhores musicas que Brian e seus companheiros fizeram em todo o seu percurso. Tanto uma como a outra carregam em si uma inesgotável fonte de exaltação temperamental, uma mistura dinâmica de impulsos adolescentes carregados de desenfreada sexualidade com uma precoce procura de vida. Dois registos que sem duvida catapultam esta banda não só como uma percursora de rock puro e bonito de se ver com um premente existencialismo. Segue-se I Know e Lady of the Flowers, como outros dois grandes momentos do trabalho acompanhados pela ininterrupta 36 Degrees. Aquele ‘i’ve never been an extrovert happily bleeding..’ não deixa ninguém indiferente....eu as vezes grito quando ele diz happily bleeding...mas não. Placebo arrisca-se a ser um dos melhores albuns de rock de sempre e um consistente e fantastico album de Placebo. Não obstante, os dois singles escolhidos, Nancy Boy e Bruise Pristine, ficam muito aquém do que este trabalho nos pode fornecer...mas lá está...singles :S anyway é dos albuns que mais roda na minha aparelhagem porque rock sempre foi a minha base. Além de que voz de Brian é voz de Brian. Um vício.
Em 1998, Without You I’m Nothing, vem glorificar uma carreira que se esperava mais que promissora. Ask for Answers e Without you I’m Nothing, tornam-se em soberbas obras de arte musicais, com especial ênfase para a emotiva segunda musica citada que dá nome ao album. Aqui assiste-se a um atingir na perfeição musical da banda como um todo, com a força desesperante de Brian Molko na voz que lhe concede toda a sua alma. Maduro, indissociável, atípico, acaba por se tornar em algo diferente do primeiro registo, na medida também que nenhum outro trabalho deles se pode comparar ao primeiro, e a iniciação em outros domínios sai um sucesso. My Sweet Prince é provavelmente a musica mais original do conjunto, encerrando um apelo simultaneamente introspectivo como sarcástico. Arrisca-se a ser também considerado o melhor album da sua historia, pois no percorrer de cada faixa, ele nunca decresce de nível, assumindo contornos deliciosamente funcionais. Existem grandiosos momentos. You Don’t Care About Us. Summer’s Gonne. Every Me Every You. Brick Stickhouse.Chegamos a 2001, e eis que explode, Black Market Music com a imponente Special K, provavelmente a musica mais conhecida do trio europeu. Curioso que foi com ela que os conheci mas foi este o ultimo album que dei ouvido. Terrivelmente inovador, Brian e seus companheiros enveredam por um estilo um pouco diferente, Brian até partilha a sua voz com um rapper em Spite&Malice, que resulta fantasticamente. Este projecto concretizado inclui uma diversidade de estilos e graduais representações artísticas, sem duvida que a linearidade de valor é um objecto a admirar e a elogiar. Temos um single menos bom(pois lá esta eu e os singles), chamado Taste In Men, mas depois aceleram sem destino para voltar, até ao topo da irreverência musical. Temos Special K(que me provoca orgasmos na parte Gravity), Black-Eyed, Commercial for Levi, Haemoglobin, Narcoleptic, Peeping Tom, Days Before You Came. E depois temos dois registos intemporais e que para mim caracterizam e competem para o lugar de melhor música do album: Passive-Agressive e Blue American. A caminhada vai no adro e chegamos a 2003.

Se eu fizer uma avaliação pessoal, de facto, sim, Sleeping With Ghosts é o melhor album de Placebo. A mim transporta-me para outro mundo, por vezes aquele que entrei quando o conheci pela primeira vez, como para o mundo da exorcisão metafisica da premente pergunta retórica que fazemos ao mundo. Eles tocam no fundo da transcendentalidade das suas composições transpostas para uma realidade exultante e expectante. Sim dá vontade de lhes dizer:’ é isso aí!!!’, mas mesmo. Chegam a pegar nas bases de Sade, o grande Marquês de Sade e nas dissertações de Bataille. Este com certeza iria gostar de conhecer estes senhores e se pudesse escolher uma banda sonora para acompanhar as suas obras escolheria esta. Ultrapassam-se sim. Saliento English Summer Rain,This Picture, Sleeping With Ghosts, Bitter End, Special Needs, Protect Me From What I Want e CentreFolds. Um video memoravel- Special Needs. Ai estavam mesmo inspirados =) de realçar a força de This Picture. E uma versão francesa não incluida neste album de Protect Me From What I Want denominada Protege-Moi. E aí alcançamos um bico de obra porque esta juntamente com Bionic disputam o primeiro lugar na minha preferência pessoal. A mais atípica, a mais incomparavel musica de Placebo é esta, com uma certa queda pela versão french. Um video realizado pelo Gaspar Noe(só podia), um cenário de Bataille em cenografia de Christopher Honoré. As vezes as letras dizem o que dizem, fazem-no apenas mas aqui assiste-se a um aprofundamento da mais básica questão humana. E quando se atinge um patamar um pouco acima do que é esperado, é de marcar na história da Música.Meds surge em 2006 com dois grandes momentos, um denominado Meds e outro Drag, com uma In the Cold Light of Mourning soberba. E só. Nem todas as bandas conseguem fazer sempre ilustres albuns e aqui apresenta-se um queda meio abrupta. O album menos luminoso e menos brilhante. Quem conheceu Placebo através deste album deve seguramente conhecer o que eles fizeram antes porque de certo terão outra perspectiva. Todavia não deixa de ser agradavel ouvir Molko em varios registos, onde a meu ver, nem todos se igualam e todos tem o seu carisma. Onde saliento sem duvida nenhuma a musica que faz revirar tudo. Drag. Obrigada Placebo =)
Não esquecer os inebriantes covers, como Johnny&Mary, Bigmouth Strikes Again, Where’s My Mind e o actual Running Up that Hill.

Placebo é um tratamento inerte, que pode ser na forma de um fármaco, e que apresenta efeitos terapêuticos devido aos efeitos fisiológicos da crença do paciente de que está sendo tratado. Pode ser eficaz porque pode reduzir a ansiedade do paciente, revertendo assim uma série de respostas orgânicas que dificultam a cura espontânea:
· Aumento da frequência cardíaca e respiratória
· Produção e libertação de adrenalina na circulação sanguínea
· Contracção dos vasos sanguíneos

Pessoalmente a mim deixa-me louca. Addicted mesmo.Foto by me na segunda fila do CreamFields Lisboa

maio 13, 2007

waste on you

Era mesmo a única coisa que me apetecia quando desci e assentei no pulsar daquelas batidas. Era exactamente deixar-me esvair como o mar de sangue que periodiamente me escorre pelo corpo, num dilacerante descontrole da minha embriaguez mental. Era chegar aqui, e aqui não estar ninguém. Eu não queria ninguém. Eu queria apenas entrar e que este espaço fosse só meu e estivesse completamente vazio de almas, corpo, e material. Que fosse todo desapoderado de respiração alheia e de pulsações exteriores. Queria-o só para mim sem qualquer parede sequer de forma a que eu me evadisse totalmente sem as barreiras usuais da comunicação. Essas que me limitam e me transportam para aquela dimensão da incompreensão. Mas era algo mais. Aqui havia algo que realmente ultrapassava tudo.
Havia o cansaço, havia o fatalmente. Quando tudo é fatal, em qualquer momento da nossa vida, sentimos assim uma eclosão quase laboratorial em crescimento contínuo, numa perspectiva egoísta da nossa saciedade intelectual. Olhamos em redor todavia não identificamos nada que nos transmita aquilo que queremos ver porque, de facto, não queremos ver nada. Porque o nada, o vácuo que afinal nem existe e só nos estilhaça, clama pela nossa insanidade aleatória. Qual espaço, qual divisória, aqui nada nos separa. É estranho. Acaba por ser guturalmente monocórdico. Uma falta de palavras. Eu não sei comunicar pela falácia da linguagem, nem pelos intermédios que brotam da minha imaginação fértil(essa esconde-se atrás de um arbusto gigante e não me deixa assomar nem por um pouco), eu apenas naquele instante mantenho-me na minha posição que não avança nem recua.
E depois? O que mudou? Mudou muito. De facto mudou imenso. Nem eu sei creio eu. Mas sim. O que eu queria mesmo era que este desgaste, este waste on you, penetrasse na minha pele e erradicasse por todos os poros, por todas as vias e me transplantasse para um terreno, o qual eu penduraria a minha cabeça por uma moldura de quadro castanha, e pendesse o meu corpo por igual numa linha simétrica onde me conseguisse ver pelo outro lado. Esse outro lado. Acaba por ser uma questão insistentemente metafórica. Eu acabo por me permitir ascender a esse porto inseguro, esse posto de passagem obrigatória, aí está a palavra, obrigatória. Não preciso nem me ressinto com as atitudes, elas passam-me ao lado e assusta-me o facto, não de passar ao lado, mas de tudo aquilo convergir para um ponto, que por mais que procure não encontro, dentro de mim. E aí dentro de mim, situa-se a encruzilhada que me consome o espirito e me engradece a existência. Dentro de mim saltam as necessidades primárias. O desejo mais visceral de me relacionar sexualmente com a minha intempérie freudiana, com aquele snobismo material que teme a presença de mim neste ponto onde nada se intersecta e tudo se sobrepõe.
Sabe, sabe fundamentalmente bem a àgua e a luz ténue que ilumina essa circuncisão que efectuei propositadamente no meu corpo, na minha perna, no meu tornozelo, no meu peito. Agride puerilmente esse desdobrar consecutivo de imagens invertidas onde meras ideias se ligam a meros esforços alheios, onde afinal custa interiorizar mas não custa perceber, e nesse ponto, esse que desconheço assenta essa procura, essa força meio mal direccionada que decididamente desprezo. O que resulta dessa decisão? Pode resultar tudo como nada. Posso resultar eu. Eu resulto sempre. Que parte de mim? Essa que desceu, andou e sentiu tudo em cima de si? Não haveria suporte. Poderia ser comprado, angariado, leiloado, estaria simplesmente à venda? Creio que não.
Eu desci não para isso, não para responder sequer, eu saí para me esvair, esvair num patamar qualquer, num chão qualquer, num branco, num azul amendoado, eu apenas fui anotando os restícios dos dias, ignorando as sensações, todas elas antigas e carregadas de pó. Porque não me faz falta.
Eu cumulativamente nem cheguei a descer um degrau que fosse, na medida que aquilo que se me apresenta diante dos olhos não passa de uma mera percepção, uma súbita pertinência, uma indissociável característica comportamental. Mas quanto a isso....


listening@ Waste/ Archive.

maio 05, 2007

where soul meets body

[i want to live where soul meets body]

[1:27] até [1:43]

Despoletou. Assim de forma abrupta, uma linha equatorial, que divide linearmente os dois pontos equidistantes que formam um plano metafórico entre duas consciências sobrepostas.
Ela assim o pressentiu, seguiu por ela, fechando círculos à sua passagem. Parou e incendiou um pequeno recipiente de volume incalculável, volume esse que continha uvas misturadas com framboesas. Sentiu que no percurso que percorria nada mais a suplantava naquela dimensão.
I'm so glad I've found this
I'm so glad I did
Era azul e amarelo que deslizavam numa corrente neo-post-punk. Fechou-se no quarto verde e sentou-se ao redor de uma mesa com um enorme jarro cheio de acácias, lírios gigantes que enchiam o compartimento com um aroma inebriante. Podia ser até exagerado mas aquele exagero consumia-o num vasto périplo de sinfonias a médio-som. Ouvia-se Debussy, mais para ali adiante, um Haendel. Sentado envergava um Maurier. Lia-o incessantemente como se aquela melodia de fundo o catapultasse num trém que o conduziria ao extase da sua inteligência.
People are fragile things, you should know by now
Be careful what you put them through
You'll speak when you're spoken to
Imóvel, sentada, fumando ao altar. Podia ser sim. Deitada, carregando o fardo dos nervos a descerem e a subirem pelo corpo todo. Provavelmente se se concentrasse um instante alcançava o aroma a hortênsias azuis. Conseguia pegar naquelas folhas mais uns minutos, adormecia sorrateiramente, no vão do seu projecto.
We are the earth intruders, Muddy with twigs and branches, Turmoil! Carnage!

Que nada tenha de vão para um sem número de audiências adormecidas.
With one hand you calm me
With one hand I'm still
Deliciosamente ouvi-o de uma ponta à outra, parece ser uma mistura de um Vespertine e de uma outra mistura de Debut e Telegram, assim umas faixas fashion na eclética comparceria de sons e umas vozes mais elevadas ao expoente como Unison e Undo. Curioso e positivo.

Estava cansada. Penso que ainda se mantém. Aproximei-me dela, estava sentada ao balcão. Tive sorte. Os olhos sempre muito vivos, um sorriso agradável, a denúncia da sua loucura existencial sempre presente. Contou-me de si. De repente senti qualquer coisa como um riso, uma vontade súbita de rir, parei a tempo. Continuámos. Observei-a nos gestos, nas atitudes, nas falas, nas posições. Rimos as duas. A certeza que daquele material era que eu também era feita notabilizou-se na minha mente. Senti-me compreendida. Pouco desabafei porque agora, agora que ela enveredou por um caminho que tão pouco esperei para ela, ela nunca me compreenderia. Avançámos em direcções opostas. Concluímos que nunca fomos tão felizes quanto naquela altura.

Here's my version of it, eternal whirlwind

Era fantastica a sintonia que se estabelecia com aquele som. Era sobrenatural que tudo se encantasse e desenvolvesse de uma forma nunca vista. Fazia tudo ter uma onda de sentido, uma base estável em que ao assentar logicamente não nos feríamos. Por mais exaustivo que seja o processo ele sempre traz qualquer coisa de indissociável da corrente natural, dos humores, das disponibilidades, até das circunstâncias da vida.

Intocável.

It breaks when you don't force it
It breaks when you don't try

abril 16, 2007

we have go to take cover

Nos andamos lado a lado atravessando um vale recoberto de intempestivos fragmentos desconexos. O nosso caminhar soa ao estilhaçar de vidros no chão, por vezes, escondemo-nos atrás dos nossos arbustos existenciais e aí observamo-nos de frente para uma redoma de espelhos.
Partimos e enviesamos as nossas próprias esperanças, essas já amarguradas e disléxicas de sabor. Eu sei. Lá está, eu sinto. É complicado explicar-te por aqui, eu vivo. Here we got they're back again…look alive, warn your friends…we are warm and we are safe enjoy it while you can before things change. Sabes em momentos atrás, imaginava-nos ao som desta e outra música, acho que a exultação de uma paixão sexual se sente mais durante a vibração de uma melodia dos anos 80. Como se aquela música nos concedesse a tríade necessária para nos compreendermos e aí nos equivocármos docemente sem que essa constatação nos condenasse. Muito pelo contrário, estaríamos a ceder o nosso próprio espaço. Aparte de umas garrafas vazias, poderíamos nos debruçar sobre a nossa alma distorcida em palco coeso e fugazmente gritar o sentimento tão encarcerado e recalcado, depositado em planicies intemporais do nosso desejo simbólico.
Apraz-me admitir uma chamada da ilusão à sensação. À racionalidade perdida que tantas vezes esquecemo-nos de sustentar. Mas sabes é mais que isso. É a inexplicável sintonia que nos distende numa pergunta retórica, onde tu perguntas onde estás e eu interrogo-me quem sou....we have got to take cover brother...e have got to take cover...brother...Na entoação e no embalo da nossa voz em uníssono, ouve-se o riso estridente que levanta pobres espiritos desfigurados, eu alimento-me do teu vil percurso enfático de libertação e tu assimilas uma mera elevação objectiva que te permita ascender sem cuidados a um nível um tanto ou quanto cerebral. Parabéns, fico eternamente feliz por ti, também por instantes alcanço esse patamar auspicioso. E talvez eu possa afirmar que somos iguais. Nos gostos, nas saciedades existenciais, na plenitude da nossa redoma de vidro hermeticamente fechada. Como o teu pensamento, ele é cerrado à minha constante enclausuração gutural. Lie down in a field if you can, look at the night sky oh, where does it end sometimes it hurts when you care about me but it's going to hurt more when they take you away from me.
Eu como, tu sobrevives pedindo insistentemente esse pedaço maldito de circunstância perene, eu entrelaço-me em ti sem que tu te dês conta. Afago o intriseco círculo que te intensifica e eu mesma preencho os hiatos deixados em branco pela ténue possibilidade que deixas fugir dia a dia. É exactamente a ligação a um electro-clash regado a alcool onde os nossos corpos evadem-se ponto a ponto num mapa contruído por literatura amaldiçoada, por períodos ferteis de arte barroca em que nos debruçamos por eles acima, e consumimos desenfreadamente essa fonte de cultura latente, vulgo arte, em que nos deixamos escorregar e alcançar vitoriosos, batalhas a dois onde nos reunimos para a exasperação última.
Cortas por um pedaço ínfimo de destreza essa certeza absoluta. Certeza essa que desconheces e em quem eu confio. Tem graça porque não a sabes explicar e eu entendo-a na perfeição. Chega a ser curioso porque aquilo que eu sei se envolve de uma capa onde sobrecai tudo que desperdiças, destrois, ou ambicionas, fortalecendo os nossos laços de uma forma atrozmente brutal. Here we go again, oh midnight knocks, oh explosions, maybe it's all made up in our heads, this happens to me when i'm bored or depressed.
Continuo no encadear de uma história em que sentados frente a frente em pontos diametralmente opostos, o teu olhar denuncia a nossa fraca fronteira de separação, em que a minha postura apenas remete para um desleixar da minha timidez, quando ajeito o cabelo e sorrio para o lado esquerdo, em que o nosso sorriso se intercruza com a nossa necessidade de compreensão, e onde a tua libertação tão ansiada se espelha na minha insanidade libertatária. Em mim viste uma salvação e uma onda de vida. Eu em ti consegui ver qualquer coisa como uma imagem de euforia indie, de cruzamento de sons ambíguos, de poeira metafisica sobre as nossas cabeças, onde movimentamos os nossos membros com a potencialidade e a entrega de uma noite só, essa a noite, aquela em nos encontramos e onde dançamos ao som desta música ou da outra, onde te deitas cansado e eu esgotada deito-me sobre ti, sentindo o teu corpo pulsar com o meu, bebendo o ambiente em que vivemos e dilacerando os nossos clímaxes em meros segundos. Abafamos as vozes que se erguem cá dentro e rodamos simetricamente numa espiral de vidros, e em que em cada embate frontal, eu vejo-te a ti e tu ves-me a mim
Sabes, é exactamente como estarmos virados de costas um para o outro de frente para um espelho.
Here is the best part of the song
Where i admit that i might be wrong
Because if they are good and if they are right
Then they'll have their rapture one
Of these nights
But if they are wrong

The Organ
Brother

abril 08, 2007

Inland Empire

I don’t care about that...it is something more...David Lynch nasceu a 20 de Janeiro de 1946 em Montana EUA, tendo inicialmente o sonho de ser pintor. Para isso partiu rumo à Europa de forma a encontrar inspiração para o seu trabalho. Porém viu-se obrigado a fazer trabalhos que não o agradavam e entrou para a Academia de Belas-Artes. Completamente absorvido pelas artes plásticas, realizou as suas primeiras curtas metragens: Six Men Getting Sick (1966), The Alphabet (1968), The Grandmother (1970) e The Amputee (1974). Em 1971 iniciou a sua primeira longa-metragem, Eraserhead que apenas terminou em 1977. Aqui já se observava o tão famoso mundo bizarro de Lynch e arte em stop-motion. O seu primeiro grande filme surgiu em 1980, The Elefant Man, que recebeu 8 nomeações para óscar. Seguidamente o seu trabalho envolveu nomes como: Duna em 1984, Blue Velvet em 1986, Wild at Heart em 1990, Twin Peaks: Fire walk with me em 1992, Lost Highway em 1997, The Straight Story em 1999, Mulholland Drive em 2001, e a consagrada série Twin Peaks em 1990..(quem matou Laura Palmer?..).

E agora Inland Empire. 2007.

O surrealismo existe em qualquer arte. Como na música temos Beethoven, na pintura Van Gogh, na literatura Bataille, na sétima arte, esta arte tão mal amada por vezes, encontramos David Lynch. Atípico, brilhante, metaforicamente sublime, é Inland Empire. Este estado usado como eufemismo de um mundo dentro de mundos e por aí adiante. Isso é Inland Empire. Um mistério que se desdobra no interior de vários mundos que se cruzam na mesma pessoa. E nesse desdobrar Lynch mistura fantasia, sonhos e ficção. Interliga a realidade com o ficticio. E poder-se-ia dizer que o faz repetidamente em todas as suas obras, ou nas mais bizarras, mas não, aqui assiste-se a um ultrapassar de todas as barreiras. Lynch não se excedeu, Lynch superou-se. Conseguiu transformar Mulholland Drive numa brincadeira de crianças. Não posso sobrepôr a importância de cada um destes filmes, embora a complexidade do novo filme de Lynch ultrapasse os limites da confusão mental do primeiro, e todavia também, que comparado a Mulholland apresente uma certa falta de emoção e envolvimento do espectador . O que se estabelece é uma ligação metafisica a nível fundamentalmente cerebral.Aparte. Encaremos as coisas como elas são, ou melhor, interpretemos o filme como ele é. E aí está, ele apenas é. Ele existe e apresenta-nos diante da vista independentemente se vamos ou não compreende-lo, se vamos reflectir sobre ele, se simplesmente o repudiamos ou amamos. Ele não se importa, para ele é-lhe irrelevante. O filme apenas é e desliga-se totalmente de qualquer tomada de consciência. E este posicionamento é invejável. Até é mais, é majestoso. Lynch simultaneamente que reuniu todo o seu universo sórdido, ofereceu-nos de bandeja a possibilidade de contemplação pura e somente sem questionar. Ora isso não retira a atitude de pegar em pequenos pormenores e juntar numa linha de raciocínio, mas Lynch é mais que isso, ele descarrega a espiral dos horrores familiares à nossa memória mas não deixa de estabelecer uma narrativa. Com lógica, pois claro. O que é feito baseia-se num arrancar do espectador, já mais que habituado a ter a ‘papinha’ feita, a escorregar pelo abismo da insanidade, tentando a todo o custo ligar as peças soltas, fragmentadas e indissociáveis umas das outras. E que não se esqueça isso, todas elas são indissociáveis. Mas mais, mais, pratica-se um “vale-tudo” elevado à exponencial libérrima condição de Lynch: manter consigo e somente consigo a chave que abre os fragmentos alucinogéneos que intercruzam a nossa mente. Súbito devaneio, instantâneo transe epiléptico, transfiguração orgânica de imagens invertidas em planos malditos, eis a combinação explosiva que eclode em uma bruta génese cinematográfica.

Uma viagem apocalítica, sensorial, em que nos é fornecida a exaltação da nossa própria loucura psicológica, que nos revira pelas fronteiras da cerebralidade por um processo sem fim. Talvez eu tenha adoptado uma postura essencialmente vulnerável à percepção de um objecto que vive para si, e daí tenha saído esgotada como se tivesse passado um mês inteiro a estudar sem parar. Ele extenuou-me. Num cansaço grotescamente viciante, em que o corredor do vanguardismo contemporâneo lhe deve o primeiro lugar no topo da excentricidade artística. A arte. Às vezes tem destas coisas. Deixa-nos sem folêgo.Lamento encarecidamente, que ainda existam seres vivos que se arrastam para as salas de cinema apenas porque sim e transformam a própria num antro de estupidez atroz. Não é compreensível que usem o riso para disfarçar a sua mediocridade intelectual nem muito menos que saiam a meio e digam:’Que Seca!’. De facto é uma seca. Lynch é uma grande seca. Uma seca tremenda que abate os mais infames desprovidos de inteligência e cultura, num poço de basicidade crua e dura.




De facto! Lynch é um embaixador do surrealismo no cinema e por consequência é complicado aconselhar vivamente quem seja de ver esta magnifica obra ou qualquer outra. Porém não recuo em eleger como soberbo este ‘objecto’ de pura arte.

março 30, 2007

it's not hard to grow

Sabe bem, sabe especificamente bem cada pedaço da nossa memória pendente. Sabe bem observar os desvios que diariamente fazemos para viver e sobreviver, para prosseguir confiantes no caminho projectado. Sabe bem o céu azul e o sol. Sabe bem o calor. Sabe bem o mês de Março. Degusta-se com uma saciedade intemporal o veraneio cheiro que nos assola o espírito.
A mim altera, a mim seduz. A mim insiste em bater levemente como quem não chama por mim, uma vontade avassaladora de sentir, de inspirar, de viver o que está lá fora. É incrível como cada fragmento do nosso passado nos intensifica tanto como o simples presente em que recordamos épocas e épocas passadas extremamente iguais. Iguais? Nada é igual.
E aí surge a doce utopia. Surge a vontade de pegar numa fruta madura e descascá-la até que fique totalmente seca, resta o respirar do ar lá fora que por mais poluído que seja nos devolve uma imagem pueril da estação que atravessamos. Os dias não são todos iguais e os meses também não. O que se sente em Março não se consegue comparar ao que se sente em Novembro. Existe um desabrochar da nossa individualidade, da nossa história, dos nossos sentidos. Existe de facto, uma porta aberta para o sonho e para a imaginação desenfreada, ávida de novas emoções. Ou existe de facto para mim.
É tal e qual como ouvir episódios novos de pessoas do passado. Pessoas essas que preencheram a minha vida, a transformaram e a adornaram de uma forma muito especial. Pode-se afirmar que o retorno as velhas euforias de querer voltar atrás, não se repetem, apenas se valoriza o que se viveu de uma forma saudosista e racional. Aí sim, gera-se espaço para a admissão de um sem fim de vivências felizes, algumas até muito caricatas. Existe espaço para olhar para o ano passado como para 2000. Para 2001, para um 1999. Existe tanto para integrar na pessoa que hoje em dia somos, tanto que nos faz sorrir de boca cheia. Existe um sol que teima em não chegar defintivamente, um calor que tende a nunca mas se instalar, mas uma fonte de vida no exterior que não podemos desprezar.
E nas saudades do que se foi, do que se compartilhou, estendem-se inúmeras certezas que actualmente somos mais do que fomos no passado. Não se lastima apenas se integra numa identificação pessoal, o conjunto de folhas de papel que outrora descreveriam momentos exaustivamente existenciais. Porque no vai e vem de instantes, dias e noites, não nos apercebemos muitas vezes que podiamos parar para aumentar esse momento por si só tão insólito na sua plenitude de entusiamo pela vida, e acabamos por mais tarde, só mais tarde, encararmos o que fomos da forma mais consciente. Da forma que nos permitirá ascender a níveis tão elevados quanto inacessíveis, quando permanentemente apenas levamos atrás de nós os dias e as horas.
Um misto de saudade e de paixão pelo que somos, de enamoramento pela nossa pessoa neste mês sorrateiramente belo. De sabermos que ainda sobram nos interstícios da nossa alma, réstias do que naturalmente vivemos. Do sentir.There’s still a little bit of your taste in my mouth
There’s still a little bit of you laced with my doubt
It’s still a little hard to say, what's going on

There’s still a little bit of your ghost
Your witness
There’s still a little bit of your face i haven't kissed
You step a little closer each day that i can’t see what's going on

Stones taught me to fly
Love taught me to lie
Life, it taught me to die
So it's not hard to fall
When you float like a cannonball

There’s still a little bit of your song in my ear
There’s still a little bit of your words i long to hear
You step a little closer to me
So close that i can't see what's going on

Stones taught me to fly
Love, it taught me to lie
Life taught me to die
So it's not hard to fall
When you float like a cannon
Stones taught me to fly
Love taught me to cry
So come on courage
Teach me to be shy
Cause it's not hard to fall
And i don't wanna scare her
It's not hard to fall
And i don't wanna lose
It's not hard to grow
When you know that you just don't know


Damien Rice

março 21, 2007

obscured

Apetecia-me apagar-te. Como que com uma borracha, dilacerar todo e qualquer vestígio que me prende a ti. Pender cada momento por uns 1000 m acima da minha cabeca e deixá-los cair sem olhar para trás. Apeteciam-me esquecer que um dia vi azul e branco no mesmo espaço e que um dia parei e senti da mesma forma. I once fell in love with you just because the sky turned from gray into blue. Queria desprender de mim anos e meses que nunca se chegaram a passar. Queria dizer-te adeus e que esse adeus fosse para sempre mesmo que eu depois viesse a ver tudo de outra maneira. Gostava de entender como as coisas são e porque o são. Adorava avançar um comportamento ciente que era o único correcto. Sinceramente ambicionava que não existisses para assim não deturpares a minha realidade tão estável. Inevitavelmente não era esquecer nem me culpar. Não era recalcar nem sobrepor. Era apagar mesmo.
Gostava que um dia percebesses que não foste um sétimo inferno angustiante, muito pelo contrário, iluminaste uma sala esgotada e abafada num desgastante sufoco, em algo pueril e adormecidamente calmo. Algo que eu precisara desesperadamente por já não ter forças para continuar. Algo que me ressuscitou e me concedeu um alento não revigorante mas inesperado. Mas acabou por ser algo que eu própria construí. Algo que só eu fomentei. E depois de o apreender, concluí que o tudo podia ser meu através apenas e somente de mim. [conclusão maldita que todos renunciam até ao último dia da sua vida].

Porém agora, agora, neste efémero instante temporal, apercebo-me que é mais. É mais do que uma simples linha recta que seguimos mandatoriamente, é mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa. E aí a necessidade de cortar a corda urge. Neste preciso momento, porque agora é a hora. E chega a ser irónico. Extremamente irónico. On the anniversary of his death, she drew a beautiful picture of a whale. Porque não dá vontade de explodir num vácuo e deixar a poeira baixar mas sim entender que as nossas características inter-pessoais nos perseguem e nos invadem teimosamente até não resistirmos e cairmos por terra. Não vale a pena lutármos contra nós próprios, vale mais a pena sermos fiéis a nos próprios. Não nos sacia a consciência que se seguirmos por aquele caminho vamos ser incorrectos para com o exterior quando aquele é o único caminho que conseguimos seguir. And then i was strong but i have lost the flower and the innocence in this setting i feel lost because nothing has got anymore sense. Não vale a pena acreditar porque a palavra nem existe como não se espelha uma indissociável vontade de querer acreditar. De precisar. Porque não preciso. Nem quero. Todavia eles estão lá. E quanto a eles nada podemos fazer. Apenas contorná-los. E aí é que eu queria apagar-te. Levemente até que nenhum contorno da tua insensibilidade sobrasse em mim. Destoasse em mim. Pour l'anniversaire de sa mort...Lost your head, now you sleep on the floor
what you said, i don't want anymore
through the haze, make your eyes up to ache, out in space, days away

through these eyes i rely on all i've seen. obscured
through these eyes, it looks like i'm home tonight

left for dead as you sweep out the cold
things we said we don't need anymore
tale inside her like a fallen kite, hey, hey, yeah

through these eyes, i deny on all i see. obscured
through these eyes, it looks like i'm home tonight

what you said made a mess of me, what you said, i don't want

obscured

E ele fez anos no passado dia 17. De facto falha minha não ter escrito nada mas tempo...love him!

março 16, 2007

félicitation

‘Se não fosse Isabelle não teria feito este filme. É a maior actriz da Europa e se calhar do mundo. O filme resolverá todas as dúvidas que alguém tiver em relação a isso.’. Michael Haneke.Huppert é isso mesmo. É poder, é força, é instinto básico e visceral. Huppert é visceral aparte de qualquer instinto superior. De qualquer intempestiva necessidade eclética. Ela contempla tudo o que pode ser e não ser no mesmo papel, na mesma pele que encarna totalmente como se da própria vida se tratasse. Ela vive cada personagem como se fosse a última.

"Isabelle Huppert tem o papel da sua vida e confirma ser uma das melhores (se não a melhor) actrizes da actualidade."

"Mas o rosto que fica não estava em competição: Isabelle Huppert em "Deux", de Werner Schroeter (Quinzena dos Realizadores). É um filme com "e para" Isabelle, que interpreta duas gémeas, separadas às nascença (filhas de Bulle Ogier), em périplo de drama, sexo e ópera. As obsessões de Schroeter são as mesmas (incluindo a escatologia), mas quem se deixar levar pela colagem caótica de planos emotivos, há-de receber um plano que parece redimir tudo. Há anarquia infantil à solta em "Deux". E Huppert é rainha nesse jardim de infãncia."

‘A Pianista’ de Haneke trouxe-lhe o rótulo de melhor actriz contemporânea/francesa, o que for. Fala-se de algo diferente que mesmo pouca gente consegue compreender. Fala-se de pequenos pedaços encaixados com uma ordem não-linear na nossa sub-consciência adormecida. Ela permite-nos ascender a ela e não ter medo das consequências. Ela acalma. Afaga a epopeia existencialista que nos consome o espirito muitas vezes, desconvexo. Com o simples olhar, do alto da sua imponente frieza, ela concede-nos o que procuramos muitas vezes e não encontramos. Um sensibilização pelos actos incongruentes de um interior em chamas exorcisado por comportamentos anacrónicos, uma transfiguração da espiritualidade versus exaltação carnal desenrolada por Bataille, duas gemeas em forma e dimensão promíscua, uma ironização sarcastica, uma aventura no poço rotundo que é a democratização dos sentimentos, enfim...Enquanto muitos a subestimam existem ainda muitos a quem ela lhes sussurra ao ouvido...."O grande destaque vai, sem dúvida, para o extraordinário desempenho de Isabelle Huppert, naquela que é uma das personagens mais marcantes de todo o cinema recente. Só ela é todo um programa psicopatológico, sociológico e de muitos outros temas. Só ela, ou elas (actriz e personagem) já justifica(m) um lugar na história desta arte."

"Isabelle Hupert está magnifíca. A melhor actriz da actualidade e um desempenho esplêndido"

"Isabelle Huppert tem aqui talvez a sua melhor interpretação da sua carreria, a sublimação de todos os ensinamentos que tem recebido, muito em particular de Chabrol. Um só olhar, ou até um simples andar, define imediatamente a personagem que interpreta, e domina toda e qualquer cena do filme. Não precisa de gestos espalhafatosos nem de esgares. Numa palavra: portentosa!"

"Este filme devia se chamar 7 mulheres e um MULHERÃO. Isabelle Huppert és uma Deusa. Após este meu grito de admiração posso dizer que a película "8 mulheres" é uma obra simples, eficaz e bastante divertida (..) No meio de todas as actrizes da película, uma ofuscava no acto de representar qualquer outra. Isabelle Huppert, a ex-masoquista pianista, a fazer uma comédia. É impressionante a polivalência desta actriz e quanto a mim é sem dúvida uma das melhores (para mim é mesmo a melhor) actrizes da actualidade. Cada vez que tinha uma fala..enfim...onde estão as outras actrizes?. Cada cena, cada "roubo". Um must see. Só por sua causa vale a pena ver a película, ou teatro filmado, como lhe queiram chamar."

"Ou: como filmar o que de mais contraditório, secreto e inconfessável existe dentro do ser humano, sem que isso se transforme num pretexto para uma quermesse de «porno-chic», num compêndio visual de fantasias obscenas ou num festival de voyeurismo. Ou: como fazer um filme de terror realista e «clínico» só para adultos, onde Bach e Mozart coabitam com o sexo duro e o sadomasoquismo. Ou: está inteiramente certo quem diz que Isabelle Huppert é uma das maiores actrizes do mundo. Desde já, e sem a menor hesitação, «A Pianista» é um dos acontecimentos cinematográficos do início do século e um dos melhores filmes do ano.""Uma proeza nos limites do próprio cinema. Ou como se filma o impulso amoroso nas suas gloriosas ambivalências — os actores são um prodígio e Isabelle Huppert surge, também ela, nas fronteiras mais radicais do próprio acto de representar."

"O que Isabelle Huppert faz em "La Pianiste" - e não se fala só das "cenas" de figuração "arriscada" - poucas actrizes seriam capazes de o fazer. Como ela diz, este tipo de argumento, este tipo de desafio, ousar os limites do pudor, "não se deve aceitar de ânimo leve, e ainda bem que é assim". No caso dela, claro, houve Haneke; mas o caso dela é particular: o sacrifício e o prazer andam de mãos dadas, numa espécie de procura da perda de si própria. (...)O registo de Huppert nos filmes é habitualmente introspectivo porque, ela diz, "o cinema quer revelar o invisível, uma câmara é uma lupa, vem tirar-nos coisas que nós não sabemos que cá estão, por isso não vale a pena estarmos a reforçar o processo com mais coisas"."

"E são os actores a pagarem o preço figurativo, também ele cruel, de tal ousadia: Louis Garrel (um dos «Sonhadores», de Bertolucci), através de uma comovente vulnerabilidade; Isabelle Huppert, habitada por uma perdição carnal e ao mesmo tempo fria como uma estátua, apenas uma das maiores actrizes contemporâneas."

"Perante a Hélène de MINHA MÃE, antecipa-se que se irá juntar a um percurso reconhecível de personagens indomáveis, sacrificiais, interpretadas por Isabelle Huppert. Não é por veleidade, mas a frase inaugural de Bataille em "O Erotismo" - "a aprovação da vida na morte" – parece feita para elas. E Já se pode falar do "efeito ”A Pianista”... Mas é verdade que não vemos outra actriz no lugar dela."

"Não resistimos a citar-lhe uma frase do livro: "Uma verdadeira grande actriz nunca tem medo de papéis de monstros".
Huppert; "Ela não tem medo porque nunca os vê como monstros. Se os visse, teria medo como toda a gente. Em todo o caso, uma actriz tenta aprisionar o monstro. Ou mostrar que o monstro pode fazer parte de nós."
E assim comemora-se mais um ano de vida da melhor actriz do mundo. Huppert é luz. Huppert dissocia o indissociável e integra o já podre desintegrado chão miserável em que continuamente nos abatemos numa simples aparição cinematográfica. Sacrificio e prazer. Não há prazer sem culpa. O prazer não tem culpa. Necessariamente nada se coaduna. E porque haveria de ser coadunar? Trangressão e proibição. Eis a questão.

16 de Março de 1953

.Pequenos trechos/criticas/exposições intercaladas por observações minhas =)

março 06, 2007

missed me?

'Sarcasticamente ela lançou-lhe um olhar que o despiu dos pés a cabeça. Estavam subdivididos por barreiras intransponíveis de letalização orgânica. Mrs. G caminhava francamente nas suas direcções quando foi interpelada por uma gorvenanta despistada:’ deseja servir o chá?’
Ouve-se no fundo do corredor um ruído ensurdecedor, um copo partira-se. Talvez uma chávena. Algo que sorrateiramente teria perdido o atrito que outrora detia. Ela sorri e rapidamente desata numa euforia grotesca rodeada de gargalhadas sonoras que ecoavam pelo salão fora. Ele levantara-se exausto e corria até um compartimento fechado.
Ria-se. Ria-se. Gritava-se. Excedia-se. Agastava-se vezes sem conta num prelúdio emancipal da condição humana.
Serenamente reluziam os cristais alinhados na prateleira de cima, essa mantida perenemente por estandartes equidistantes, ordenados por faixas pueris de discórdia momentanêa. Discutia-se longinquamente o que se deveria servir pelo jantar. Irritavam os gritos histéricos das empregadas afoitas que empunhavam panelas e tachos de uma forma tão disforme quanto aleatoria. Separavam-se os frutos secos e as entradas numa mesa aparte, os doces de travessa excêntricos que rodopiavam por prateleiras acima e abaixo. Ela assomava ao quarto. Um quarto lilás, decorado em tons de violeta escuro, quase roxo, sustentado por cortinas azuis, por paredes pintadas de lilás pálido e ornamentos colocados lado a lado, dispostos irregularmente. Estava de frente para ele. Ele estava de costas para ela. Limpou discretamente o ombro e sorrateiramente centrou-se no seu olhar. Virou-se de frente para ela. Ela balançou os membros e iniciou uma dança em que o seu corpo circundava cada local daquele espaço. Ele fitou-a durante 6 minutos. Ela continuou acabando-se por prostar a seus pés entoando:

Missed me, Missed me
Now you've got to kiss me
If you kiss me, mister, I might tell my sister
If I tell her, mister, She might tell my mother
And my mother, mister, She might tell my father
And my father, mister, He won't be too happy
And he'll have his lawyer, Come up from the city
And arrest you, mister, So I wouldn't miss me
If you get me, mister, see ?

Missed me
Missed me
Now you've got to kiss me, If you kiss me, mister
You must think I'm pretty, If you think so, mister
You must want to fuck me, If you fuck me, mister
It must mean you love me, If you love me, mister
You would never leave me, It's as simple as can be !

Missed me
Missed me
Now you've got to kiss me
If you miss me, mister, Why do you keep leaving
If you trick me, mister, I will make you suffer
And they'll get you, mister, Put you in the slammer
And forget you, mister, Then you'll miss me
Won't you, won't you miss me
Won't you miss me
Won't you miss me

Missed me
Missed me
Now you've got to kiss me
If you kiss me, mister, Take responsibility
I'm fragile, mister, Just like any girl would be
And so misunderstood, So treat me delicately !

Missed me
Missed me
Now you've gone and done it, Hope you're happy
In the county penitentiary, It serves you right
For kissing little girls
But I'll visit, If you miss me
Say you miss me , 'Cause the food they feed you
Do you miss me , Will you kiss me through the window
Do you miss me, Miss me
Will they ever let you go
I miss my mister so
Foram encontrados de gatas abaixados enfrentando os seus fantasmas, sem medos nem receios, foram rebolando pelos lençois enrolados sobre uma pirâmide concâva, encetando uma figura planar, fugindo e encontrando-se continuamente através dos mesmos lençois e das mesmas colchas. De repente desapareceram por lados opostos.
Mrs. G levava agora, uma vela na mão direita e uma travessa recheada na esquerda e equilibrava aqueles dois objectos com a precisão de uma mente capta quando sintetiza o bom senso e a virtude alheia. Entrava no quarto agora destroçado pelos ultimos esquartejamentos materiais e eclodia numa nuvem de poeira eterea. Conseguia-se ouvir, porém, uma fonte de chamadas inquietantes de espíritos desavindos com a realização do concretizado final, e podia-se ainda adivinhar que aqueles que desapareceram por portas diametralmente opostas se teriam encontrado no átrio da consecutiva destruição de dejectos humanos, esses secretamente escondidos em armários exaltantes de luxuria esgotada. Nas secreções da atípica transfiguração carnal.'


Oh my goodness! Fantástica composição musical by The Dresden Dolls oh yeah! ‘Missed me’. Many congratulations for the great performance of Amanda Palmer. Sim não consigo esconder a minha preferência pelo elemento feminino do duo americano =)

fevereiro 26, 2007

dentro de mim

E é extremamente curioso, chega a ser fantasmagoricamente surpreendente, que as correntes transportadoras de bom-senso e amadurecimento intelectual confluam no mesmo cais. Chega a ser terrivelmente positivo que tudo se circunde de uma premissa estável, se bem que tortuosa no sentido lato do ser existencial, e tudo se perpetue de uma forma imaginariamente permissiva de um comportamento alegórico montado em estandartes corrompidos por gritos ecléticos.
Ela, a outra parte, aquela que se divide e multiplica por dois moldes distintos e individuais na sua certeza absoluta. Ela aquela que olha a sua semelhante com fervor e respeito, mas que timidamente a arrasta por caminhos incertos. Ela que destoa num conjunto de cores ambíguas que se confundem num espaço ilimitado pelo circuito fechado que se criou no quotidiano. Elas as duas de maos dadas por trilhas inimaginárias. Vão contentes. Vao cientes da realidade. Vao calmamente. Vao contornando as dimensões atléticas das circunstâncias passageiras, elas vão deslizando suavemente por vales de incertezas adulteradas acreditando serenamente na pureza de um estar alimentado com os destroços do pacífico e inevitável confiar.

'Acreditas? Deixa-me escorregar lentamente....parece que sinto o frio dessas paredes molhadas....estão de azul? O que isso importa? Quero sentir o odor que vem delas e com elas absorver o desgaste dos membros agastados. Quero atingir o patamar de esgotamento são, quero não aguentar as minhas pernas por mais que 10 segundos, quero arrastar-me e ver arrastar o meu corpo por entre compartimentos hermeticamente fechados. Desejo a plenitude de uma esgotamento atroz que me impeça sequer de saborear o gosto vazio da água, que me encurrale o espírito com placas oblíquas obliterando um cheiro a madeira opaco. Quero montar persistentemente várias cores e vários pontos de viragem, quero esquecer que o segundo que passa leva consigo o meu olhar, pulsar, enraivecer, respirar, quero deitar-me numa planície coberta de mil descobertas renegadas, e aí inspirar o ar saturado que transborda do meu corpo. Quero imaginar o que imagino quando reflicto sobre as minhas próprias pulsões e aí constatar que expiro vilmente o teu doce e delineado corpo, essa fonte de excitação desleal e excedida por terrenos pantanosos de ideais irrealisticos. Gosto de supor apenas por supor, de me deixar evadir em lençois laranja numa cor ténue de desejos apocalípticos, esses que corrompem esta paixão avassaladora, mantida e ignorada por milhares de milisegundos passados e albergados por essa sensação continua e comtemplativa da minha existência normalizada. Por mim a descer e a subir andares desnivelados suscitando a catarse desta génese primordial. Ao ir.'

E ai nesse precipício da vontade, elas coexistem uma com a outra. Estão dentro de mim e entoam uma para a outra:
é pena quase não poder ficar
és quente quando a luz te traz
quase te vi amor , quase nasci sem ti, quase morri...

dentro de mim
ficas dentro de mim
por dentro de mim
estás dentro de mim

silêncio.lua.casa.chão
és sitio onde as mãos se dão
quase larguei a dor, quase perdi, quase morri

dentro de mim
estás dentro de mim
por dentro de mim
ficas dentro de mim

sempre sou mais um homem
Mais humano
Mais um fraco..
sempre..
sou mais um braço
mais um corpo
mais um grito
sempre..

dança em mim!
mundo, vida e fim!
dorme aqui
dentro de mim..

é pena quase não poder ficar
no sítio onde as mãos se dão
quase fugi amor
quase não vi
vamos embora daqui
para dentro de mim...

e sim é como ela tal e qual. Porque dá vontade de a abraçar quando ela interpreta aquele papel incutido, e dizer-lhe 'sim eu sei, sim eu vou, sim eu estou, sim eu sou'. Ela comove. Comove em qualquer papel que faz, comove em qualquer olhar que deita, ela incita em mim naquele singelo instante de assistência televisiva uma emoção comparada apenas aos melhores e mais exaustivos actores. Ela transpira na pele a emoção de um 'o problema é ter emoções a mais e não conseguir geri-las'. Dá vontade de a agarrar e levar para dentro de mim.

Tiago Bettencourt/ Dalila Carmo (oh yeah versão indubitavelmente melhor)

Música de filme

fevereiro 18, 2007

i'd curse my heart

Pack up. I’m straight enough.
Oh say say say
Oh say say say
Oh say say say
Oh say say say

Se pudesse encontrá-la dizia-lhe que é impossível uma fuga que não recaia sobre o próprio círculo de que ela pretende exorcisar. Diria-lhe que o arrastar de uma mala pesada sobrecarregada de acumulações grotescas do ser, nunca a conduziria ao patamar e ao encontro de um refúgio em si mesma, antes a um pulsar metafórico que insistentemente se extravasa por correntes impuras. Que a música que ela ouve depois de um amanhecer numa estação de comboios na fria Escócia, apenas imortaliza a sua imagem serena em tons de encarnado escuro. Em vozes perdidas num ambiente exageradamente saturado.

Sentiria que ontem, tal como hoje, enveredamos caminhos que nos valorizam a nós e ao nosso espaço, ao que precisamos de encarar de outra forma e ao que esgotamos dele. Que um sair e entrar de nós mesmos nos leva escorregar numa espiral que pretendemos ao máximo evitar, mas em que nos agastamos cada vez que a encontramos.
Fomenta-se mentalmente uma fuga baseada no ir. Sair. Mudar. Alguma sensatez em actos perdidos? Consciência de uma fonte promíscua a penetrar-nos o corpo, criando um poço de repulsa momentânea, um esgar de uma luxuria proibida mas que nos transcende e arranca do mais profundo nível uma agonia contida, um vómito dilacerante, uma criação soturna de um vasto conjunto de acontecimentos não evitáveis. De um suspirar por uma normalidade que nunca acontece.

A necessidade. A vontade. O procurar. Circundar esta sensação de loucura, de nojo estilhaçado, de recordações em locais passados, de ouvir um ‘bem-vindo ao passado’, de custar por mais que se pense que somos alheios a algo que não controlamos. De encararmos comportamentos e decisões, que por um breve segundo, nos reviram e nos estendem os membros numa forma disforme repleta de ambientes ambíguos e permissivos de um sufoco irascível. De gritar sonoramente calada enquanto acompanho o caminhar de um trilha qualquer para me conduzir a um local qualquer, o qual apenas o atingi com um único pressuposto, premissa essa inválida porque inantigível se cria e esgotadamente se destroi. Purple washes over me, seeping through my open seems, I’m stained all over.
Cansa. Chegamos a um ponto que satura. Não satura olhar para mim porque a mim me habituei, custa sair de mim e aí permanecer longe, silenciada, espectadora, do que me redundantemente foge, alcança e deteriora. Engana a observação de meros pedaços da minha essência a contradizerem-se por trechos rápidos de melodias criadas por compositores malditos, esses que vertem um suplício de cores, odores e sabores, de dimensões e gratificações, essas pagas na base do desgaste humano. Silence makes a girl talk fast speeding but I’m gonna crash, and burn for love sakes.
E no fim. No chegar. Do desejar ardente do espaço por mim contruído e por mim abandonado por meros instantes que me pudessem devolver a identidade amalgada, distorcida e recriada, por constatações incansavelmente duras de meses e dias passados, em que o exagero de uma intensidade sempre presente no quarto ao lado, me catapulta dia a dia para uma montanha-russa de pânico distinguido por etapas esféricas. Pela tridimensionalidade de uma transfiguração existencial.

Pelo arraste de um sabor adulterado, pela corrente fria que me atormenta a alma e me entorpece o corpo, pelo vulcão carnal de uma desilusão assente em sentimentos (in)destrutiveis. Wait! They don’t love you like i love you. Por mesmo assim partilhar o que não compreendes, sabendo que uma palavra qualquer me afaga essa fraqueza, assolando fugazmente este momento, aquele onde colidem todos esses ideais, esses que lhes perdi o sabor e a visão, concedendo-lhes um vasto sentido de orientação em todas as direcções. You pretend we’ve started again, waiting for me to say when. But I say purple. Por me imaginar a evadir-me de uma sala fechada onde grito vorazmente simultaneamente que me invades freneticamente contra uma similar parede, mesa ou espelho fechado, onde aos meus olhos te manténs como objecto de saciedade mútua e onde eu te assemelho a algo que anseias ecleticamente no teu profundo poço de recursivos processos de recalcamento. Onde se mistura o teu odor pelo meu amor por ti, pelo teu cheiro, pelo teu corpo, pela tua voz, pela tua pele, pelo teu olhar, pela minha insegurança, pelo teu sexo. Duty keeps a lover loyal but is it really worth the spoils when i dream purple. Onde se captura um pequeno gesto de reciprocidade alheia aos nossos sentidos. Made off don’t stray. My kind’s your kind.
Mas o que resta sou eu a alimentar-me dessa ligação, no pedaço temporal de um mapa onde se estende o desassossego inquietante em que assentou esta ponte obscura, mas não oculta, das nossas racionalidades tão distintas. I’ll stay the same.

She won’t go where i…I would go for you
I’d curse my heart

For you@cansei de comentários a seja o que for, de compreensivel ou indivizivel, e nesse âmbito perdi a vontade de manter comentários a qualquer coisa que escrevo, não me sinto à vontade que comentem muita coisa que não tem comentário possível, afinal crescer tem sido a palavra de ordem em mim e aprender a viver com a incompreensão também. Apenas sinto vontade de expor o que seja. Existem mesmo certas coisas que so servem para ser observadas. Admiradas. O que for.
Curiosamente o blog fez dois anos no passado dia 15 de Fevereiro e como não me foi possível escrever nesse dia dado que estive ausente, aproveito para dizer que é notorio uma nova etapa do blog com este novo ano, o que vem de acordo com esta decisão que tomei. Nunca pensei que continuasse a dispender tanto tempo pa escrever por aqui mas pelos vistos isso continuou.
Já agora agradeço as todas as pessoas, amigos, meros visitantes que aqui deixaram os seus comentários e a todas as pessoas que por aqui passaram, as 7392 visitas =) Obrigada =) Espero que continuem por cá.

btw:

Yeah Yeah Yeahs / Maps
Skin / Purple

janeiro 31, 2007

wake up

"Ela todos os dias percorre um caminho por ela traçado, marcado por passos atrás e sorrateiramente enviesado, por partículas infinitesimais de procura sã do mesmo pressuposto. Contudo ela pára, estaciona ligeiramente o avançar na perdição alheia para concentrar a energia num precipício de esforço incansável, pára de forma a se observar de fora de um círculo fechado. Conclui que toda a base da sua essência era um ultraje suportado pelos mesmos membros esgotados e queimados de tantas perspectivas vivenciais. Rendeu-se à voz da experiência, do que pode totalmente reter dela, do que ela lhe concedeu como princípio de vida. E aí prosseguiu.
Completava os mesmos rituais que diariamente a enojavam e lhe indicavam o caminho da repulsa interior, o vómito contido, expulso em momentos inesperados de angustia, forças gritantes a deslocarem o seu sentido de orientação para um poço sem fundo, escuro e enganador. E nesse mesmo local, ela continua, dia após dia a perder mantendo a ideia que só está a ganhar. E está. Apenas assimila tudo que a realidade lhe escondeu estes anos e redime-se às evidências num processo compulsivamente excedido pela sua própria personalidade.
Senta-se, observa as pessoas à sua volta, a entrarem e a sairem do autocarro, senta-se sob o seu próprio silêncio criado unicamente para a satisfazer naquele antro de ruído ensurdecedor provocado pela sua mente atribulada. Já não se consegue ouvir mais a si mesma. Doi sequer ouvir a voz de um mero desconhecido que passa cantarolante pela auto-estrada paralela. Custa sequer pender os membros agastados para um descanso merecido. Qualquer aroma alcança-a com um sabor adulterado e vinculativo no seu gosto indefinido.
Ele olha-a da mesma maneira que qualquer outro dia como se fosse outro qualquer dia. Ela ignora, semi-cerrando-se no seu centro activo de preocupações, essa rotina forjada na qual assentou o seu fardo existencial, mas não consegue dissociar-se dele, permanecendo incolume à sua presença. Isso instiga-a. Incomoda-a numa proporção sem possibilidade de diluição possível. Isso torna-se um peso que ela tem de aguentar até um dia, que ela nem sabe quando chegará. Entra no autocarro, passa uma avenida, uma praça, uma travessa, a rotunda e o som cresce exponecialmente no seu interior eternecido por aquela presença. Sabe que ela não existe mas mesmo assim continua a declinar o seu espirito e a afaga-lo como se tudo fosse palpavel. Ele adopta a postura de ignorante como se isso o defendesse para a vida inteira e aligeirando a situação, retribui na mesma percentagem a desilusão inter-pessoal que criou nela.
Hora após hora, quando ela contacta com os rituais que estipulou, tudo se evapora num ponto de ebulição abaixo de zero, e novamente a sua existência pesa.lhe impreterivelmente. Quando será que ela irá acordar deste pesadelo?"

Something - filled up - my heart - with nothing - someone - told me
not to cry. - but now that - i'm older - my heart's - colder -

and i can - see that it's a lie.
children - wake up - hold your - mistake up - before they
turn the summer into dust - if the children - don't grow up
our bodies get bigger. but - our hearts get torn up - we're just - a million little
gods causing rain storms - turning every good thing to rust
i guess we'll just have to adjust.
with my lighning bolts a glowing
i can see where i am going to be when
the reaper he reaches and touches my hand
with my lighning bolts a glowing i can see where i am going
better look out below


The Arcade Fire Wake Up

janeiro 18, 2007

i play dead

São momentos como estes que brotam de um segundo ilusório capaz de persuadir a alma da necessidade mortal de sacrificio. Mais devagar numa fenda aberta para o escorrer de um devaneio dilacerado, condenado à purificação divina.
Ao vermelho, ao encarnado, ao vermelho sangue, à necessidade, à prova pendente de auto-confiança explanificada numa segunda oportunidade. Qual? Disseminada? Retorcida visão agastada num excedente percurso enfático.

Acumulação. Deteriorização. Adulteração. Movimento. Estagnação.

Darling, stop confuse me!!
With your wishful thinking…
Hopeful embraces, don’t you understand?
I have to go through this
I belong here
Where no-one cares and no-one loves
No light no air to live in
A place called hate- the city of fear

I play dead::: it stops the hurting
I play dead::: and the hurt stops

it's sometimes just like sleeping
curling up inside my private tortures
i nestle into pain
hug suffering - caress every ache

i play dead : it stops the hurtingConsciência. Racionalidade. Essa voz penosa e efervescente que lineariza o sangue que nos corre nas veias orientando-o para os compartimentos seguros do nosso corpo, onde toda a nossa alimentação de carne etérea não penetra, porque assim não nos estilhaça irreversivelmente, sufocando-nos num grito de amargura concâva.


Contém. Invade. Rejeita. Sufoca. Deita, circunda de pequenos restícios podres a imensidão dessa nuvem fantasmagórica que se tornou assombrosa no seu dialecto humano.

Esgota. Assenta os joelhos no chão. Admite. Abaixa-te, resiste mas redime-te.
Anseia. Espera. Pela redenção.

Ela virá ornamentada de dejectos multiplicados por duvidas adormecidas na decadência exagerada do teu tumulto.
Porque chega o instante em que não consegues mais mas ainda avistas a moradia do desejo maldito que te crucifica ao esgotamento. À sobrevivência.

Play Dead
KROJB

janeiro 13, 2007

none of you can make the grade

Habituei-me a mim. Habituei-me à perene necessidade de solidão que recolho honestamente em compartimentos coplanares da minha existência. Não parti mas já não sei voltar. Deitei-me sobre um terreno movediço apenas e somente para me observar a mim a vacilar por entre as amarras que me prendiam ao passar do tempo, dos segundos, da eternidade do tempo, da questão do tempo. Parei para fixar o sangue que docemente me escorria e se misturava com a àgua abundante, que se assemelhava a um fluxo estagnado da minha auto-sustentação. Habituei-me a mim, aos acordes momentâneos da minha loucura restabelecida em projectos estipulados por etapas lineares, adormeci o silêncio que me evadia nos pequenos resticios de uma paz ancorada no vulgar. Ando as voltas a esquecer quem sou. Cedi em mim um espaço para a auto-contestação, para o viável e o indivisível, para o possível e o real arbitrário. Constatei que não preciso disso. Encarei a possibilidade de absorção no vulgar metafórico que me circunda. Prossegui dissociável. Porque o sou. Retrocedendo verifica-se que na base, no último segundo, o desespero de uma amargura contida durava segundos. Meros. Que o turbilhão experimental, que se transformou o meu livro aberto, se espelhou em escapes criados para uma fuga impossível. Bebo a noite até o sol chegar. Ele sempre me encontrou. Mas mais levemente. Mais pausadamente vi que os laços que nos ligam uns aos outros são facilmente quebrados da mesma forma que os criamos para mero aproveitamento psicológico e espiritual. Porque pode-se ouvir a mesma musica e não se apreender da mesma maneira a mesma essência. Porque pode-se ser e não se ser no mesmo patamar, pode-se escolher ser e escorregar metodicamente por escadas criadas no nosso ‘eu’. Pode-se não compreender, pode-se pensar que se compreende demais e ficármos aquém das expectativas, pode-se inclusivamente atingir um limite para depois se admitir que ele não existia. Pode-se viver e apreender uma simples realidade que não corresponde à realidade.
None of you can make the grade
Correr. Ficar. Perder. Querer mais. E agarrada aqueles meros minutos, aquelas batidas, ao sintetizar de um pôr-do-sol adiado, ao esperar numa penumbra no raiar da manhã, estende-se a fome na indiossicrasia agastada dessa luz. Já não sei viver sem ter que viver. Eleva-se, excede-se, compartilha-se dentro desse círculo fechado o próprio horizonte interior, penetra-se esgotadamente, e insiste insiste insiste. Escreve-se e deita-se fora. Fora para onde? Fora mas dentro deste poço obrigatório que se tornou a confusão mental baseada na vida real. E o que me dão já não sei gostar. E é tão natural como a inevitabilidade do tempo. É tao incontestável como as construções patéticas que criamos para sobreviver no próprio lixo que fomentamos. E é tão humanamente estupido permanecer no acreditar dessa ridicula utopia. Não se perde o que não se quer ter. E depois? Depois advém a incompreensão. Advém o estar. O procurar estar no seu estar. O não fugir, muito pelo contrário, o enfrentar bem de frente, destruindo aos poucos a muralha que teimosamente alimentamos para nos escondermos de nós próprios. E quando a levantamos temos medo. Um medo dispensavelmente pertinente assente na farsa que dia a dia mantemos. Mas depois existem outras essências. E outros arquétipos contínuos. E é exactamente aí que me encaixo, e me habituo completamente a mim mesma.
Habituei-me aos vãos de madeira que deliciosamente lambi a espera de me ver do outro lado do espelho. Cada vez menos sem esperar.
Stuck between the do or die
I feel emaciated
Hard to breathe i try and try
I'll get asphyxiated
Swinging from the tallest height
With nothing left to hold on to
Habituei-me a deslizar nessa asfixia incontornável

[2.35 até 3.09] Come Home

Harder faster
Forever after
Harder faster
Forever after
Harder faster
Forever after
Forever after


[4.24 ate ao fim] Come Home


[3.06 até ao fim] Bionic
e se for a primeira vez que os teus dedos tocam a luz da manha
dá-me a tua mão. respira o ar do dia.
talvez. nada. mais.